TELEMOVEIS: O meu amante é pequeno e prateado
O imenso manto de silêncio que cobre os momentos de tédio auditivo é rasgado pelo indisciplinado desarranjo musical do toque de um telemóvel. É inegável a panóplia de vantagens que este invento trouxe e promete trazer, no entanto, hábitos e vícios foram gerados e cinzelados pelos possessivos detentores deste pequeno confidente electrónico.
Os que já pensavam que eu tinha esquecido que os responsáveis por todo o mal do mundo eram os homens, desenganem-se, as ondas magnéticas do telefone sem fios só potenciam a já ridícula figura, definitiva, do bicho-homem. Parado, por questões biológicas, no tempo, o bicho-homem cedo percebeu que só alcançaria o grau de desenvolvimento dos outros bípedes se adquirisse objectos tecnologicamente desenvolvidos e neles depositasse a responsabilidade da evolução. Depois do advento da máquina de barbear este objectivo inglório coube ao telemóvel, missão hercúlea, quase feminina, que este pequeno dispositivo resolveu adoptar sem recear ser conotado com moca de trol raçado a varinha de condão.
O bicho-homem cedo adoptou a máxima “small is beautifull” para os telemóveis, quando antes tinha adoptado a célebre “small is fun” aplicada à capacidade de discernimento racional do próprio(homem). Um verdadeiro rei da cidade (outrora selva densa) gosta de possuir material “state of the art”, “creme de la creme”, “bom como o caraças”, e para isso não faz qualquer tipo de concessões em relação à pensão alimentícia que fornece à mulher nos anos bissextos, esqueçam o pé de meia para a cerveja de Domingo….é sagrado! Com um nas mãos o bicho-homem ganha outra vida, e falo de telemóvel!!!
Mensagens inteligentes (convém num telemóvel de símio), Wap (oi?), toques polifónicos (a solução para acabar com a depressão dos surdos), blue tooth (melhor que pretos!!) e a imprescindível máquina fotográfica…Esta última inclusão veio revolucionar o dia a dia masculino. Ardilosos, os infames, orientam o olhar indiscreto, sugador de almas e privacidade, e captam mais um ângulo a uma espécime do sexo oposto menos preenchida pelos incómodos jaezes protectores a que chamamos roupa. Um sorriso ou contracção muscular orientada para uma direcção apreendida num processo arco-reflexo em que o estímulo não é mais do que um palmo de pele descoberta, desvenda toda a inocência que o animal não consegue esconder. É boa e é minha, a máquina fotográfica?! a foto?! a pobre sujeita ás investidas do homem do saco de testosterona?
Desculpem o discurso prolixado (pró lixado?!), tento ser sucinta, mas sinto que a conversa sabe melhor ao natural, sem mediadores electrónicos. Se a posse de um seis centímetros (passo a publicidade) excita um homem, a mim não, já não se fazem telemóveis como dantes, aqueles com mais de 20 cêntimetros…(suspiro)
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